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As aventuras do Super Micheranja
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Entries for September, 2004

September 25, 2004
Primeiras palavras
Posted at 11:51 PM

Antes de qualquer coisa, já aviso que, conforme nos ensina o Mestre Shaolin, "em página de designer, o layout é template".

Como provavelmente trarei comigo a eterna preguiça de ficar embelezando isso aqui (além da falta de prática com blogs, essas coisas modernas), não esperem nada muito revolucionário na parte visual.

Apenas senti vontade de escrever em algum lugar as besteiras que penso diariamente. Claro, como todas as manifestações egocêntricas da Internet, espero que alguém leia.


September 26, 2004
Amizade instantânea
Posted at 04:48 AM

Uns dias atrás, fui até o Camelão (ou Camelot, como prefere o Sagaz) comprar algumas caixinhas para os meus CD's, digamos... genéricos. Quando estava saindo, a vendedora me disse "Obrigado, amigo". Amigo?

Fiquei matutando aquilo durante a volta. (Eu penso muitas inutilidades enquanto estou caminhando.) Ok, é comum um vendedor te tratar como "amigo". Ele quer parecer cordial, quer tentar formar uma conexão, uma amizade instantânea; quer que você se sinta compelido a comprar qualquer bobagem que ele estiver vendendo. "Ah, o amigo não sabe como está difícil manter a loja, a procura por artigos feitos com pêlo de iaque não é tão grande quanto parece; mas perceba a qualidade destas escovas de chaminé, por exemplo..."

E pára aí; é o máximo de apelo emocional que vai conseguir. Ele é homem, ué; eu não tenho porque agradá-lo.

Já uma mulher vendendo algo tem opção de realizar uma abordagem muito mais eficiente. Óbvio, ajuda se for bonita e tiver voz sedutora, mas qualquer mulher, valendo-se de um mínimo de charme, tem mais chances de vender alguma coisa para um homem do que outro homem. (Naturalmente, estou considerando aqui aquelas compras por impulso, e não coisas que você realmente precisa – e que acredita que apenas um homem entenda profundamente, como peças de automóvel.)

"Ah, mas os homens são bobos, mesmo!" Escuta, é como funciona. Eu não sei porque. E, pelo que eu lembre, nunca fui chamado de "amigo" por nenhuma vendedora, antes!

Pois digo para vocês: quando isso acontece, acaba todo o encanto. "Olha, foi muito bom realizar esse negócio, mas sabe... eu vejo você como um amigo." Poxa, que decepção; com que cara vou voltar nessa loja? Mesmo que eu não tivesse nenhuma chance de virar cliente especial, não precisava jogar esse balde de água fria. Deixa uma esperança, mesmo que ínfima; no desespero, vale até chamar de "moço", sei lá. Mas "amigo"? Parece algum tipo de estratégia de marketing às avessas.

Não sou apaixonado por essa vendedora, não. É que o caminho de volta demora uns dez minutos.


September 26, 2004
Música popular
Posted at 03:47 PM

Quinta-feira, se não me engano... (provavelmente me engano; enfim...) estava voltando da padaria quando encontrei pela rua uma velhinha de roupas esfarrapadas. Ela parecia bastante animada e cantava a seguinte música:

"Ôôô, é o Tarzaaan... e a Sheee-ra! Pelada, co'a mão no bolso!"

Curiosamente, a melodia não era da música do Tarzan, nem da She-ra, nem do... Ultraje a Rigor? (Não lembro qual é a banda.) Mas percebam: isso é que é a verdadeira expressão popular. É lindo; é arte.

Na hora, pareceu importante registrar o fato.


September 26, 2004
Sabedoria da natureza
Posted at 04:07 PM

"Produto natural", diz na embalagem de um certo iogurte. Como de costume, não lembro qual é o nome; aquele da vaquinha, (né Cassi?), uma marca genérica qualquer. Não importa. O que me incomoda é que queiram me convencer que iogurte de morango é um produto natural.

"Crianças, sabem em que época do ano estamos? Primavera! As vacas estão dando iogurte de morango!"

"Oba! Não agüentava mais o de pêssego!"

Sim, o que eles querem dizer (espero) é que os componentes do iogurte são naturais. Mas então, que digam isso, não que o produto é natural. Nem sei direito como o iogurte de morango é produzido; porque ainda tentam me enganar, dizendo que ele é gerado espontaneamente na natureza?

Veneza. Acho que é iogurte Veneza; confirma, Cassi.


September 27, 2004
Fúria incontida
Posted at 12:15 AM

Alguém mais vem recebendo e-mails de propaganda política? Já recebi do Chico Assis e de um tal Xandi Fontes, candidato a vereador. Odioso, para dizer o mínimo. Como se já não houvesse propaganda suficiente. Ou como se eu fosse acreditar em algo que recebi por e-mail – ainda mais promessa de candidato.

Sendo uma pessoa deveras desocupada, senti-me obrigado a responder às mensagens, naturalmente – se não para expressar meu desejo de morte chuvosa para ambos, ao menos para dizer um breve (ou não) "eu não voto em Floripa, antas". Aliás, isso me deixou um tanto desapontado; não posso usar meu direito de participação consciente no processo democrático para me vingar dessas pessoas, votando em um adversário qualquer.

Mas eu desejei "má sorte" para o Chico Assis. Viram como sou mau e rancoroso? Aposto que vocês nem imaginavam toda essa agressividade desmedida que me consome, adormecida em meu coração de pedra.

(Nem deve haver ninguém para ler eventuais respostas à esses e-mails... damn it!)


September 28, 2004
[design] Identidade nacional
Posted at 12:18 AM

"[a linguagem do design gráfico] é, por definição, internacional. [...] como ser nacional tendo de ser necessariamente internacional?

Em nenhum lugar do mundo o design gráfico tem uma linguagem propriamente nacional [...]: o design italiano não gesticula, o design inglês não possui fleuma, o design francês não é necessariamente charmoso. [...]

[...] no caso brasileiro [...], vive em contradição permanente, porque empurrado para uma preocupação nacionalista por conta da tradição cultural na qual se insere e ao mesmo tempo preso ao internacionalismo próprio de sua natureza"

André Villas-Boas, Identidade e Cultura (2002), p. 46-47

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Esse trecho me levou a pensar sobre o interesse – que parece ter crescido bastante, nos últimos tempos – em definir uma identidade nacional dentro da prática do design. Naturalmente, o esforço é válido. Não acho improvável que a caracterização como "produção brasileira" já se manifeste automática e inconscientemente, invisível aos nossos olhos. Meu receio reside justamente no desenvolvimento de expressões conscientes de uma identidade nacional, de métodos para "acentuar" a brasilidade de qualquer coisa. A identidade real daria lugar a um reflexo – e fatalmente serviria ao intuito de "agregar valor" através de carga simbólica.

Não me deterei muito tempo expondo minha opinião sobre essa história de agregar valor (ou: "fazer alguém pagar mais por algo que parece valer mais"), prática que diferencia mocinhos e publicitários. Mas, se o objetivo for mostrar ao resto do mundo uma identidade cuidadosamente forjada para aumentar o valor de mercado de nossos produtos, não há necessidade de entender o que realmente define a identidade brasileira. Basta criar um estereótipo e tentar passá-lo adiante; como a competência dos italianos ao desenhar roupas, dos alemães ao projetar automóveis e dos franceses ao fazer qualquer daquelas bobagens que insistem em fazer.

P.S.: Sim, estou bastante certo que "brasilidade" existe. Nos dois sentidos.


September 28, 2004
[review: música] Temple of Shadows
Posted at 04:15 AM

Sério, não sei qual é o objetivo de uma banda ao gravar um álbum com tantas participações especiais, mas o resultado é muito bizarro – e previsível, em grande parte do tempo.

"Acho que deveríamos chamar o Kai Hansen para cantar em Temple of Hate. Ele adora participar de álbuns alheios! Sem contar que a linha vocal é no estilão dele..."

"Bom, a Wings of Destination é descaradamente uma música do Blind Guardian... vamos convidar o Hansi Kürsch para cantá-la, então!"

"Ora, vamos chamar de uma vez o Tobias Sammet; ele já está acostumado a participar de álbuns com vários convidados, pode ajudar a gente a pôr ordem na casa!"

Way to go, guys; estão seguindo a cartilha direitinho! Não que as músicas sejam ruins, mas prefiro quando o Angra toca Angra. Vai ficar para o próximo álbum, porém; talvez a banda convide o André Matos para cantar.

Algumas participações são menos óbvias, como a garota que não sei quem é (Spread Your Fire, No Pain for the Dead) e o cara que eu juro ser o Ian Anderson (The Shadow Hunter, Sprouts of Time).

No final das contas, a mais grata surpresa é mesmo o Milton Nascimento. Late Redemption é uma ótima faixa (por mais que soe improvável essa intercalação inglês/português); perfeita seria, aliás, se fosse toda em português, evitando o efeito "tradução simultânea". Vale destacar que o mérito é do Milton Nascimento, e não do Edu "nessa-faixa-quero-usar-minha-pronúncia-de-inglês-do-primário" Falaschi.

Talvez eu apenas não tenha ouvido o álbum o bastante; talvez não valha a pena, mesmo. (Sim, estou ficando velho e resmungão demais pra ouvir essas bandas cheias de guri novo.)


September 29, 2004
Morcegos ouvem em cores
Posted at 04:22 AM

"If you try to take a cat apart to see how it works... the first thing you'll have in your hands is a non-working cat."

Frameshift, Unweaving the Rainbow (2003): Above the Grass Part II

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Frameshift consiste em um agrupamento de músicos que, por serem progressivos, gostam de escrever letras que enfocam as relações interpessoais no mundo moderno. Naturalmente, eles falam através de analogias. Porque são progressivos. Como a analogia aqui é feita com a história da evolução sobre a Terra, percebe-se que os caras viajam pesado. Afinal, eles são profissionais. E progressivos.

O que sempre me deixa frustrado ao ouvir esse tipo de álbum é a sensação de "Por que precisei ouvir a versão didática e musicada de um raciocínio lógico para entender uma coisa tão simples?"

Coisa simples: qualquer pessoa é incapaz de compreender integralmente qualquer relação que ela tenha com outra, simplesmente porque sua percepção é unilateral e condicionada. Qual é o sentido, então, de alguém afastar-se de uma pessoa a fim de tentar entender melhor os próprios sentimentos em relação à esta, se eles não serão os mesmos que se manifestam durante a proximidade? Algumas coisas simplesmente precisam ser analisadas em conjunto.

Não lembro exatamente o nome da teoria (ou se é efetivamente uma "teoria"), mas alguns cientistas defendem que o melhor meio para compreender de forma satisfatória o Universo e as relações entre seus elementos é estudá-los em conjunto. O velho dilema: como analisar o comportamento de uma partícula isolada de qualquer influência externa se o pesquisador em si constitui uma influência externa? Ou melhor: por que tentar entender tal comportamento isolado se ele nunca ocorrerá na prática?

Conclusões? Não vou mais sentar e tentar entender que efeito eu tenho sobre outra pessoa e que efeito ela tem sobre mim. O que não puder perceber no movimento conjunto será apenas uma conjectura que não pode ser comprovada.

E nada de tentar entender as coisas; perceber já está de bom tamanho. Pensar faz mal.


September 30, 2004
[review: cinema] O Terminal
Posted at 12:54 AM

"Eles não têm motivo para me deportar. Enquanto continuar limpando o chão e mantendo a cabeça baixa, eles não se importam comigo."

Gupta, O Terminal (2004)

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Tom Hanks mais uma vez interpreta o papel que lhe cai tão bem: o de sobrevivente. Ele já suportou um mundo cruel munido apenas de inocência e bombons; ele já resistiu aos rigores de uma ilha deserta (e ao temperamento de uma bola de vôlei); dizem até que ele esteve na guerra, mas não assisti esse. Agora, ele precisa enfrentar as armadilhas de um lugar muito mais hostil: the international transit lounge!

Sinceramente, ao ler a detalhada sinopse "Cidadão fica preso no aeroporto porque seu país de origem sofreu um golpe de estado", tive receio de estar pagando para assistir algo do naipe de Quarto do Pânico. Mas é um filme do Spielberg, que prefere contos de fada à... bom, bosta.

Naturalmente, os clichês abundam. Uma certa passagem do filme, inclusive, conta com uma música de fundo com alto coeficiente de Sessão da Tarde – bastante condizente com o clima da cena, diga-se. Mas eu gosto de clichês. E do modo Tom Hanks de se fazer humor. De fato, considero um ótimo filme. Se o Oscar realmente servisse como legitimação de qualidade cinematográfica, algumas novas categorias deveriam ser criadas apenas para que este filme tivesse o reconhecimento que merece:

Melhor nome de país vizinho da Xuláquia
Dixon (diretor de segurança): "You're from Krakozhia, right?"
Navorski (Tom Hanks): "Krakozhia, yes! Krakozhia! KRA-KO-ZHI-A! Ha-ha!"

Melhor analogia
Dixon: "Pretend this potatos are Krakozhia."
Navorski: "Krakozhia, yes; Krakozhia."
Dixon: "And this apple..."
Navorski: "Big Apple! New York!"
Dixon: "Yeah yeah... The apple is... the rebel force of freedom. Well..."
(som de saco de salgadinhos sendo esmagado violentamente por uma maçã, expelindo seu conteúdo sobre um perplexo visitante da Krakozhia)
Dixon: "... no more Krakozhia."

Melhor interpretação de nacionalidade eslava
"I understood him... wrong. In Krakozhia, the word for 'goat' seems like 'father'. The man needs remedies for his goat. He seems to love his goat."

De brinde, o filme ainda toca (muito de leve, lógico) em alguns pontos mais delicados, como o tratamento que os imigrantes recebem na Terra da Liberdade. Muuuito de leve... afinal, é um filme do Spielberg; é para encher os olhos (e o coração, no caso dos espectadores mais élficos), não para encher a cabeça de idéias.