Entries for October, 2004
October 1, 2004What Iraqi women want Posted at 03:17 AM Estava pensando desde ontem sobre um ponto do documentário Fahrenheit 11 de Setembro. Michael Moore critica a aceitação cega, por parte da população estadunidense, da desculpa oficial para a invasão do Iraque (a luta pela liberdade e blablablá's adjacentes). Parte considerável do filme é dedicada a expor argumentos para acreditar que os iraquianos não estavam contentes com a guerra (como o fato de tratarem os soldados com hostilidade e mandarem-nos voltar para os EUA). O problema é que Moore chega em suas conclusões do modo tipicamente yankee: observando as coisas de longe e julgando-se um ótimo observador (apesar de olhar através do vidro espesso da redoma que o separa do resto do mundo). Ele não vai até o fundo, não se preocupa em pesquisar qual é a opinião dos iraquianos; Moore baseia seus argumentos no que dizem os soldados estadunidenses e suas famílias. O fim do documentário mostra uma mãe que passou a achar que a guerra não era uma coisa tão boa, depois que perdeu seu filho no Iraque. Fica no ar um tom de "Oh, a guerra é ruim porque afeta negativamente a vida das pessoas. Se é ruim para pessoas daqui – que são o referencial que considero válido –, deve ser ruim para as pessoas de lá; porque eles são pessoas também, não?" Talvez os iraquianos quisessem uma intervenção dos EUA (talvez, uma que não fosse uma invasão). Talvez não quisessem intervenção alguma. Naturalmente, o que o povo quer não é necessariamente visível através de seus representantes oficiais; governos não costumam ser o reflexo mais fiel de um povo. Enfim: uma situação bastante complicada, e não sou eu quem vai entender relações internacionais se já cambaleio nas interpessoais. Mas me incomoda que alguém acredite conhecer algo profundamente apenas porque conheceu além da superfície. (Ainda considero o documentário bastante válido, especialmente para ajudar a entender como o povo estadunidense enxerga certas coisas. Nesse aspecto, creio que Tiros em Columbine seja ainda melhor; assisti hoje na HBO.) |

October 2, 2004
Conexões Posted at 02:58 AM vergonha, anseio; armadilha do medo escravo da culpa, vazio segredo braço estendido, toque reprimido infindo enredo, fugaz sentido delírio, impulso; vã satisfação bunda, peixe, pato, avião salafrário, quaternário, abecedário bosta de poema |

October 2, 2004
A Mandy comenta, a Mandy é legal Posted at 08:16 PM Todos os dias, agora, ingiro maçãs e iogurte. Não vou mais morrer por comer apenas besteiras. Satisfeitos? Pessoas que se importam com minha vida... morram todos! E comentem. Vocês nunca deixam nenhum comentário aqui. Só a Mandy comenta; a Mandy é legal. Aliás, vai ser o título do post. |

October 2, 2004
Distâncias na mente e no chão Posted at 09:53 PM Lembrança autêntica é gratuita e instantânea. Lembrança insistente é saudade. Lembrança recorrente é insegurança. Lembrança onipresente é obsessão. Falta de memória não inibe a profusão de lembranças. |

October 3, 2004
Pikachu, eu voto em você! Posted at 09:11 PM Por que ninguém me avisou que a votação era hoje? É óbvio que eu esqueceria! Lá fui eu, com banho tomado em tempo recorde, apertar os botões – ainda sob efeito dos 30 minutos de automatismo pós-despertar. Tudo para não sofrer as conseqüências (que não lembro quais são) por não votar. Detalhe inútil: havia um pombo preto voando aleatoriamente na minha seção, sendo perseguido por mesários sem muita prática em capturar pombos. Coisas da roça. Fato intrigante: por que as pessoas acham útil pavimentar a rua de santinhos no dia da votação? Elas acreditam que os indecisos escolhem um papel aleatório do chão e votam? Ou que todo mundo esquece o número do candidato favorito e precisa de um lembrete a cada cinco metros? Sinceramente, combustão espontânea não é algo tão freqüente quanto deveria... Epílogo: andando na rua, à noite, tive a oportunidade de esbravejar "Die, motherfucker; burn!" a alguns bobocas que faziam questão de buzimorar a vitória de algum candidato. Vocês me conhecem; eu deixei a oportunidade passar. Damn. |

October 5, 2004
Retificação Posted at 12:07 AM Graças às minhas formidáveis habilidades de ler textos em inglês e consultar mecanismos de ajuda, vocês podem agora deixar seus comentários normalmente. As enigmáticas (e, não raro, mortais) configurações do Tabulas nada mais podem fazer além de curvar-se à minha vontade. Eu sei; meus poderes me espantam, também. [Já que as configurações do Tabulas não estavam tão redondas, peço desculpas pelo esporro prévio. Mas a parte que envolve maçãs e iogurte permanece.] |

October 7, 2004
Discussões após a morte Posted at 12:34 AM http://www.metas.com.br/add/add.htm Estava pensando sobre essa história de DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção), já que praticamente todas as características batem com as minhas. E fornecem uma explicação para meu gosto pela discussão. Sempre estive ciente dessa tendência para discutir; inclusive, já aviso algumas pessoas com antecedência. E se for mesmo apenas resultado de uma irregularidade fisiológica? Um pedaço da minha personalidade (que eu julgo bastante visível e relevante) é determinada por uma mera variável da minha programação biológica? Irreversível, irrecorrível? E se todos os aspectos de todas as personalidades forem determinados assim? Serão todos os humanos mais parecidos quando a engenharia genética for uma forma comum de prevenir problemas de saúde? [Se você não aceita a existência de um espírito como parte integrante da totalidade humana, o resto do parágrafo não faz muita diferença.] Considerando que todas as teimosias, covardias e egoísmos (e inocências, altruísmos e apegos) são determinações do corpo físico, seriam todos os espíritos parecidos entre si? Não são raras as visões religiosas de que a divindade maior constitua um "uno"; seria, talvez, uma forma de dizer que todos os espíritos compartilhariam uma mesma consciência, uma mesma "personalidade"? Parece uma boa saída para explicar a possibilidade de uma pós-vida pacífica (já que é mais complicado imaginar todas essas pessoas, com anseios e atitudes diferentes, concordando ao definir como deve ser o "céu"). E se eu não mais participar de discussões depois de morrer? Será que vou sentir falta disso? Dica do dia: celebremos a diversidade, já que não sabemos por quanto tempo a teremos. |

October 13, 2004
Posted at 01:46 AM George: "All right, that's enough. I gotta go home and take a nap." Jerry: "It's 10:30 in the morning! [...] are you still decomposing?" George: "Decompressing." Seinfeld #156: The Summer of George |

October 13, 2004
[fun fact] Bis Posted at 03:22 AM Bom, ao menos tive motivo para rir hoje... Dentre os ingredientes utilizados na fabricação do chocolate Bis, temos desde os mais comuns (como açúcar, gordura e o popular poliglicerol polirricinoleato) até coisas como gema de ovo em pó. Embora não tenha o paladar apurado o bastante para entender o papel do ingrediente na composição, tomar conhecimento do seu uso valeu uma risada por me fazer indagar (1) 'Por que alguém resolveu pôr gema de ovo?' e (2) 'O que se passava na cabeça de quem resolveu transformá-la em pó?' Detalhe: "Pode conter traços de avelã." Como assim, 'pode'? Talvez uma alternativa ao aviso (menos formal) 'Feito no mesmo tonel da Tortinhas Avelã; nem sempre a moça limpa direito antes de usarmos para fazer Bis'. [2004.10.21 edit] - - - - - - - - - - "Hummm....gema de ovo....num é pra dar liga?" (Kalini) Havia me esquecido desse detalhe: dentro do Bis há biscoito (i.e., coito entre retângulos de waffle, favorecido pelo chocolate), deve ser aí que entra a gema de ovo. Mas isso ainda não justifica a transformação de qualquer coisa em pó... |

October 20, 2004
Free brain space: 2kB Posted at 12:44 AM "Leite condensado caramelizado, com flocos crocantes, coberto com o delicioso chocolate Nestlé." "Dois hamburgers, alface, queijo, molho especial, cebola, picles, num pão com gergelim..." Malditos publicitários; fazem com que eu ocupe memória em cérebro com essas coisas e fique sem espaço para guardar minha idade atual. |

October 20, 2004
Deficiência educacional Posted at 12:46 AM Estava lembrando hoje de todas as coisas importantes que os desenhos animados me ensinaram na infância: • gritar pode causar avalanches • um serrote é a ferramenta ideal para fazer um buraco circular em um plano (geralmente o chão) • trens podem surgir a qualquer momento e sem aviso • um foguete amarrado nas costas é um meio de transporte rápido, porém instável • descargas elétricas conferem força e gatos maiores • bigornas são muito comuns em qualquer lugar • luvas brancas combinam com quaisquer roupas (e até com a ausência destas) Tão logo começou a década de 90, vieram os desenhos cada vez mais "corretos", e as crianças perderam a oportunidade de aprender tantas coisas valiosas. Pois digo: como arremedo de universo politicamente correto e cientificamente explicável, já me basta a vida real. Jim, traga-me dois desenhos semiologicamente incorretos, por favor. Sem gelo, com avalanches. |

October 20, 2004
Brincando com o dicionário (1) Posted at 12:49 AM mun.do s. m. 1. Conjunto de espaço, corpos e seres que a vista humana pode abranger. 2. Conjunto dos astros a que o Sol serve de centro. 3. O universo inteiro. 4. A parte do universo habitada pelos homens. 5. Cada planeta considerado como sendo habitado. 6. Cada um dos dois grandes continentes: o antigo e o novo. 7. A humanidade, o gênero humano, os homens em geral. 8. A maioria da gente. 9. Opinião pública: Pouco se me dá do que diga o mundo. 10. Categoria, classe social. 11. A vida secular. 12. A vida mundana. 13. Grande quantidade de pessoas, de coisas etc.; multidão. 14. Lugar ou casa espaçosa. Adj. Asseado, polido, purificado, puro. S. m. pl. 1. Lugares. 2. Os diversos planos sob os quais se considera o universo. [...] (Dic Michaelis UOL) - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Ou seja: a definição de mundo não diz nada. De fato, diz um mundo de coisas: Universo, sistema solar, B-612 ou, simplesmente, "realidade"; tudo é mundo. (Gostei mesmo foi da parte do "asseado", que explica o "imundo".) No fim das contas, consultar o conceito de mundo não foi uma das coisas mais produtivas do mundo... (O que me faz lembrar da discussão do último domingo, sobre o conceito de "conceito". Hahaha; eu passo.) |

October 20, 2004
Brincando com o dicionário (2) Posted at 12:50 AM técnico adj. 1. Peculiar a uma arte, ofício, ciência, etc. [...] [subentende-se, também, "relativo à técnica", já que] técnica sf. O conjunto de processos de uma arte ou ciência. (Minidicionário Aurélio) téc.ni.ca s. f. 1. Conhecimento prático; prática. [...] prá.ti.ca s. f. 1. Ato ou efeito de praticar. 2. Experiência nascida da repetição dos atos. 3. Maneira ordinária de agir; costume. 4. Realização de um dever moral e social. 5. Maneira de agir, de fazer certas coisas. [...] (Dic Michaelis UOL) - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Se técnica é o conhecimento para fazer alguma coisa, um problema técnico é um problema em saber fazer alguma coisa. Quando o piloto de um avião diz que não pode fazer o avião decolar por conta de "problemas técnicos", ele está dizendo que não consegue fazer o avião decolar porque não consegue fazer o avião decolar. Ou seja: não disse nada que você já não soubesse. Assim, alegar um problema técnico é a coisa mais cachorra que alguém pode dizer ainda mantendo uma imagem de que tudo está sob controle (quando, na verdade, não se sabe o que está errado). Naturalmente, se o piloto disser "Eu não sei porque esta desgraça não decola, sou pago apenas para apertar os botões", boa parte do passageiros deixará a aeronave. (Se algum for escocês, provavelmente levantará o kilt e mostrará sua bunda branca à tripulação antes de descer.) Existe também um uso piedoso da expressão, reservado às ocasiões em que um leigo observa um profissional tentando fazer algo em vão e pergunta o que há de errado. Em vez do "Não vê que isso não é factível, animal?" que alguns leigos merecem, há a alternativa, mais polida, "Desculpe caro usuário, mas sua requisição não poderá ser atendida devido à problemas técnicos além do nosso controle". O cliente pode ficar ressabiado, mas ninguém sai chorando; desta forma, o problema técnico permite que o mundo não se torne menos feliz por conta de problemas técnicos. |

October 20, 2004
[review: cinema] Olga Posted at 12:51 AM Sim, demorou, mas assisti. Já com todos os comentários alheios, exortações, reclamações; preparado para o melhor e para o pior. Mas com direito a descobrir coisas de que não me haviam alertado. Minha impressão, logo no início do filme (digamos, nos primeiros 45 minutos), foi de que se tratava de algo tão empolgante quanto um tiro no saco. Sequer a nudez feminina presente fazia muito para desviar minha atenção dos pôsteres na parede. As interpretações são, em média, medianas – salvo alguns casos abaixo do status "mereço como cachê mais do que um pão com ovo". Embora tudo na vida e na arte seja discutível, achei alguns pontos do filme muito romantizados. Os alemães são maus, separam mãe e filha na base do porrete; brasileiros são legais, permitem a um casal de presos políticos um último abraço e não fazem muito esforço para separá-los. Não que os alemães sejam os mais élficos dos seres, mas os brasileiros também não são. Acho meio forçada essa idéia de que os brasileiros não eram tão rígidos assim em termos de repressão. Para que ficar escamoteando? Todos sabem que essa época não foi um mar de rosas, que os policiais não assopravam depois de bater e que os nazistas não detinham exclusivamente o know-how da tortura com quebradores de nozes. Ponto positivo: o filme não tem "cara de novela" como alguns me disseram. Lembra, sim, a linguagem das séries globais, mas o que se poderia esperar? Não vi o símbolo do SBT em lugar algum. Na verdade, me agrada a fotografia do filme e, para o bem ou para o mal, tem cara de produção nacional. A carga emocional é, sem dúvida, o enfoque principal, e nesse sentido tudo foi feito bem direitinho. Este banana voltou para casa amuado. (Bem, some-se ao impacto da história algumas bananices pessoais; não garanto que o efeito bananalizador ocorra em todos os espectadores.) Achei um bom filme, mas não "Oh, glorioso filme!" como saíram bradando por aí. |

October 21, 2004
Acolhida às indesejadas Posted at 03:44 AM Todos vocês já conhecem meus super-poderes (ao menos, os mais óbvios). Hoje, falaremos sobre o super-poder da minha mãe: a capacidade de escolher as maçãs mais toscas do mercado. As marcadas, as esburacadas, as quadradas; as sem cheiro, as descoloradas, as amolecidas; as traumatizadas, as excluídas, as mal-amadas; todas as maçãs com um ou mais problemas desse naipe acabam na fruteira aqui de casa. Hoje mesmo, comi uma com gosto de cebola. Ou minha mãe tem também a habilidade de encontrar cebolas com formato de maçã. |

October 29, 2004
Casos veterinários Posted at 03:55 AM Hoje consultei a Dra. Ornitorrinca, laringologista. Ela disse que tenho bons ouvidos, mas vai saber... ornitorrincos são estranhos, capaz que nem tenham ouvidos; assim, qualquer ouvido parece bom, pois é melhor do que nenhum. Aliás, ornitorrincos são tão feitos com o resto do resto que pode-se contar qualquer lorota sobre eles. Só há pouco tempo ouvi dizer que são venenosos; e por que duvidaria, afinal? Talvez eles até desenvolvam características novas com o passar do tempo. "Ei! Você soube que o banco foi assaltado? Dizem que o ladrão chegou planando com membranas debaixo dos braços, cuspiu uma substância sonífera nos guardas, abriu o cofre com um rabo em forma de martelo e fugiu virando fumaça!" "Meu, que história ridícula!" "É sério! A polícia encontrou digitais de ornitorrinco por todo o banco!" "Ah, então eu acredito..." |
