Entries for April, 2005
April 3, 2005Muita coisa na minha cabeça Posted at 06:35 PM Estava há pouco no banho; como sempre, pensando em bobagens e/ou divagando. Distraído. Pus condicionador na mão e, quando levei à cabeça, pensei: "Ué, meu cabelo está pastoso?! Que estran... SEU IMBECIL! VOCÊ AINDA NÃO TIROU O SHAMPOO!". Deprimente; ainda bem que não sou chefe de segurança de uma usina nuclear. Felizmente, pude salvar a dose (?) de condicionador porque ela se recusou a sair da minha mão. Como quando você está tão molhado debaixo da chuva que a água que cai até ajuda a secá-lo, levando um pouco da umidade embora. Era só isso. Podem voltar aos seus afazeres normais. |

April 10, 2005
Boi bom Posted at 06:30 AM [Trecho de uma discussão levada a cabo no Orkut sobre farra do boi, que pode ser acompanhada desde o início aqui.] - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Pessoas, acordem. A primeira coisa que eu disse nesta discussão foi: eu não sou a favor da farra. Mas não posso combatê-la se isso significa compactuar com argumentos distorcidos ou um moralismo hipócrita. Negar a validade de algo como aspecto cultural simplesmente por não gostar é querer elevar-se ao patamar de juiz supremo, cujas vontades determinam o que é certo e o que é errado. Condenar determinada prática mantendo-se conivente com outras de natureza semelhante é hipocrisia. Vocês querem defender a natureza e os direitos dos animais na sociedade? Lindo. Façam isso, então, em todos os lugares onde é necessário: farra do boi, rodeios, circos, zoológicos... E os lugares que condenam inúmeros animais a uma vida de confinamento, em que mal têm para onde andar, apenas para gerar as condições ideais de desenvolvimento para abate e consumo? Tudo isso não caracterizaria "maltratar um animal"? Ou só a farra do boi faz isso? Ah, mas a proibição de circos e zoológicos eliminaria duas formas de entretenimento – e, naturalmente, estas sim, são diversões culturalmente válidas; veja e aprenda. Reestruturar o sistema de criação apenas para garantir condições decentes aos animais é inviável, acarretaria mudanças em toda a economia nacional (e as granjas nem são tão estressantes, que exagero). E os rodeios? Como assim, proibir os rodeios? As novelas, viveriam de quê? Discussões filosóficas? Você viaja, hein? Está é conspirando para tirar o emprego dos palhaços de rodeio, não pensou neles? Como você pode ser tão cruel? E a farra do boi? Ah, isso é fácil perseguir! Ocorre esporadicamente, tem poucos adeptos; fácil de se eliminar e mostrar serviço como defensores da natureza, além de não afetar a economia. Assim, as pessoas percebem como a sociedade está interessada em defender o respeito aos animais. P.S.: Atrelar a uma carroça, confinar a um quintal, extrair leite, atropelar, instalar etiquetas e sinalizadores, treinar como instrumento de defesa, usar como cobaia para testes, extrair lã, usar como meio de transporte; tudo isso é maltratar? Não? Então sejam coerentes. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Time and time again What you said ain't what you mean Even if all my bones are broken I will drag myself back from the edge to Kill the King, the King is dead, long live the King I am the King, God save the King Megadeth, Capitol Punishment (2000): Kill the King |

April 13, 2005
Um dedinho de dor Posted at 12:13 AM Hoje, vítima de uma armadilha do destino, queimei o indicador direito. Fui à farmácia comprar outro, mas os modelos caucasianos estavam em falta; acabei me contentando com uma pomada, na esperança de que seja realmente mágica e regenere meu dedo ainda esta noite. Já sinto falta do meu indicador. Percebo, inclusive, que é uma das partes mais solicitadas do corpo humano. Minha primeira idéia foi traí-lo, confesso; incapaz de esperar por sua volta, tentei em vão recorrer aos demais dedos. Mesmo o médio da mesma mão sequer chega perto do indicador (e nem deveria; a sociedade já reservou ao dedo médio uma tarefa bastante específica na comunicação, a qual dedica-se incansavelmente). O que dizer, então, da mão esquerda? Não fosse por minha avançada técnica de digitação usando apenas a mão esquerda, desenvolvida anos atrás, suas limitações seriam agora especialmente frustrantes. Enfim; com ou sem dedo, a vida continua. Descobri que algumas coisas não são tão difíceis como imaginara; outras, porém, mostraram-se surpreendentemente complexas, e temo que ainda haja surpresas reservadas para mim. Estou ciente de que, mais cedo ou mais tarde, todo homem é arrebatado por uma vontade primal, que só pode ser satisfeita com sua mão direita em perfeitas condições. Estou falando, claro, sobre escovar os dentes. Desejem-me sorte. |

April 14, 2005
Por um trauma completo Posted at 12:42 AM [Trecho de uma conversa pós-queimadura (vide post anterior).] - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Nicole (minha sobrinha): "Por que você anda com a mão nas costas? Deveria andar com a mão na frente, para saber se alguém vai bater nela ou não." Michel (as himself): "Mas assim eu evito justamente que alguém acerte minha mão ao esbarrar de frente comigo." Nicole: "Ninguém vai esbarrar em você." Michel: "É? E se o farmacêutico ficar tão feliz por fazer a primeira venda do dia a ponto de se lançar em um abraço? Isso pode acontecer!" Nicole: "Isso não vai acontecer." Michel: "Bom, alguém mais pode querer me abraçar." Nicole: "Ai, Michel; eu tenho certeza de que ninguém vai querer te abraçar." Michel: =( |

April 14, 2005
O dedo indicador e sua influência na sexualidade moderna Posted at 01:25 AM O último banho ensinou-me uma coisa: muito mais relevante do que as ações individuais de cada dedo é o seu papel no trabalho de equipe. Meu indicador já quase não dói, mas uma bolha formou-se exatamente sob a dobra, cerceando muito de sua desenvoltura habitual. Como resultado, tive a sólida impressão de que o lado direito de minha cabeça foi lavado com uma eficiência 20% menor. Além disso, pude perceber que o sabonete me escapava da mão com uma freqüência assustadora; isso só pode significar que, na prisão, quem queima o dedo corre um risco muito maior de queimar outra coisa. |

April 18, 2005
Cultura tem limite Posted at 02:04 AM Eu mesmo não acredito muito na veracidade deste relato, mas tais eventos realmente ocorreram. Estava caminhando tranqüilamente nesta madrugada, em direção à padaria. Passando pela Avenida Central, um grupo de garotas assobiou; como havia algumas pessoas aqui e acolá, achei que não era comigo e segui em frente. Duas esquinas depois, duas garotas que se divertiam falando com estranhos na rua começaram a sussurrar; uma delas instruiu a outra a gritar "Apavorou!" ou o que valha, e a amiga obedeceu. Continuei assumindo que não era comigo e mantive minha passada militar. Já na volta, dois caras genéricos passaram de moto, e um deles fez questão de dizer "E aí, roqueiro?"; inegavelmente, era comigo. Mas tudo bem, eu estava quase chegando em casa novamente; logo estaria livre dos cumprimentadores aleatórios compulsivos – SE não fosse por três homens de meia-idade, de quem fiz questão de manter uma saudável distância. Pois um deles, notoriamente bêbado, virou-se e me chamou. "Ô rapaz, eu conheço você! É amigo da minha filha!" Bloody Hell. Por mais bêbado que ele estivesse, eu não poderia deixar de cumprimentar. Ele apertou minha mão e se aproximou – com a graça que apenas os ébrios têm – como que para falar ao meu ouvido. E BEIJOU MEU ROSTO!!! Aaaaah! Deuses, que homem, por mais que tenha bebido, mesmo tendo sido criado na cultura mais alienígena, beija qualquer coisa barbada por vontade própria? Fiz o que pude para não ter um ataque qualquer (já que é pai dessa garota, que manterei anônima) e desvencilhar-me da conversa o mais rapidamente possível. O resto do trajeto foi percorrido na velocidade da luz, para que eu pudesse lavar o rosto e conferir se estava escrito "Sacaneie comigo" na minha testa. |

April 19, 2005
[review: cinema] Herói Posted at 04:43 AM Um filme feito para encher os olhos. Não no estilo hollywoodiano, porém – não há raios de energia, demonstrações gratuitas de grandeza ou complicados quebra-cabeças visuais. Há energia, pura e palpável; há grandeza, voltada ao enlevo e não ao espanto; há quebra-cabeças, dotados de uma sofisticação que apenas a simplicidade possibilita. A diferença é sutil e, ao mesmo tempo, inegável. A narrativa não-linear lembra, de certa forma, Corra, Lola, Corra, ainda que a história seja trivial ao ponto de permanecer em segundo plano. Cada cena tem valor individual, e todas são carregadas de simbolismo. O realismo dá espaço ao quimérico para permitir a discussão de uma realidade mais profunda; para compor um filme sobre luta e conflito que não se deixa guiar por violência e sangue. |
