Entries for September, 2005
September 6, 2005Realidade virtual Posted at 06:14 PM Hoje é uma sexta-feira virtual. A única coisa que quebra um pouco a magia é que o feriado se comportará como domingo e não sábado, já que as lojam fecham e o dia seguinte é útil. Mas tudo bem, a semana já vai começar numa quinta e logo será sexta-feira de novo. Aproveitarei o feriado para tentar entender porque uso meu tempo pensando nessas coisas. |

September 11, 2005
Os nomes têm poder Posted at 09:46 PM [Como eu sou um rapaz muito pro lixo, na semana passada pensei (e anotei) inúmeras besteiras para contar por aqui. Não tenho tempo para escrever todas de uma vez mas, como diria o Hique ou o Guga (não lembro mais), "devagar no seco anda".] Ainda encantado por haver encontrado um restaurante chamado "China et Tal", portador deste belo trocadilho triplo, eis que me deparo com o (menos nobre, claro) "Cantinho da Unha". São nomes que não têm a mesma sonoridade musical de "Buga Luga Aluga Buggy" ou a sutileza poética de "Sorveteria Bar do André", clássicos incontestáveis, mas guardam ainda um mérito todo especial. Vale lembrar também da "Casa João", encontrada em Curitiba durante as perambulações do último Purungo, cujo nome descreve com maestria seu ramo de atividade: venda de sacos para aspirador-de-pó. |

September 11, 2005
Queixo de vidro, estômago de metal Posted at 09:59 PM Mais assustadora do que a proliferação de sabores exdrúxulos de salgadinhos Elma Chips é minha disposição para comprá-los. O último que provei foi o tal Ruffles Bits, com "salpicados sabor salame". Até que é ok; o que me chamou a atenção mesmo foram os ingredientes – que naturalmente não incluem salame, embora haja até queijo no rolo. Lá pelas tantas, surge um tal dióxido de titânio. Que grosseria. Imagina, posso contar aos meus netos que comia titânio quando jovem. Se bem que, no futuro, provavelmente haverá coisas muito mais sinistras na comida. - Você comia titânio, vô? Uau! Tudo que eu agüento é esse corante cinza sabor adamantium que tem no meu iogurte. Nem sei o que é adamantium; é verdade que é algo do seu tempo? - É sim, mas é um metal instinto. Isso aí deve ser sabor imitação. |

September 11, 2005
Conversas imaginárias Posted at 11:54 PM [Percebam: as partes em laranja nunca aconteceram.] - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - guest: Já falei que sua blusa é bonita? Michel: ... Peraí, vou conferir nos meu arquivos, na seção "opiniões sobre meu vestuário"; lá estão anotados todos os comentários que já fizeram sobre as minhas roupas. guest: Er... seu babaca! Michel: Vou anotar isso em "opiniões sobre o meu caráter". - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - cliente (ao telefone): Estou aqui com o rapaz da informática e ele disse que as fontes n... Michel: "Rapaz-da-informática"? Por favor, eu sou formado; é SENHOR rapaz-da-informática para você! - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Michel: Aqui está seu CD. cliente: Não quer ficar com ele? Michel: Tudo bem, já copiei os arquivos. Lógico, seria útil se um monstro japonês gigante pisasse na nossa sala e destruísse o computador. João: Ou se um hacker invadisse o sistema e apagasse o disco rígido. Michel: Ah sim, mas isso não é muito provável; a imprensa cria muita fantasia em torno disso. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - guest1: *atchim!* guest2: Saúde. Michel: Haohmaru! guest1: ? guest2: ? Michel: Ainda que meu corpo esteja aqui, diante de vocês, meu espírito está em casa, jogando Samurai Shodown. |

September 20, 2005
God bless Xuláquia Posted at 12:09 AM Sexta passada houve exposição de bonsai no Angeloni. Gosto de bonsai, mas aqueles pareciam meio roubados, cheios de armações de metal nos galhos. O expositor era um senhor de idade com feições orientais, o que não é tão comum de se encontrar por aqui. Tive vontade de dizer "Tachibana Ukyo" e declamar a abertura do Samurai Shodown – incluindo, claro, o "pching-pching!" no final. As pessoas achariam que eu sou inteligentão e que falo japonês. Acabei desistindo para evitar um incidente diplomático; como vocês já devem saber, quando longe de sua terra natal, todo cidadão xulaco tem automaticamente a autoridade de embaixador. Algumas vezes, isso torna as relações internacionais confusas, especialmente quando dois ou mais embaixadores reúnem-se para beber e alternam declarações de guerra e tratados de paz. Como a última proclamação é a que vale, prevalece a palavra do diplomata que cai por último. Vários embaixadores notáveis passaram por um período de treinamento na Escócia; outros se abstém da ingestão de água e favorecem a Rola-Moça, inclusive para escovar os dentes. Outros ainda seguem a filosofia do pão. Para bom entendedor. |

September 20, 2005
Mais é menos Posted at 12:16 AM Incrível como o recebimento de salário incentiva o gasto de salário em bobagens. Fui ao mercado com o intento de comprar apenas manteiga e voltei com: manteiga, Coca-Cola, Chandelle Fondue (que, naturalmente, não tive paciência para esquentar), pote de 2 litros de sorvete Kibon e três sabonetes – mas tudo bem, os sabonetes estavam em promoção. (Quer dizer, tudo bem se, ao guardá-los no banheiro, eu não tivesse percebido que já havia comprado três na última promoção. Agora eu tenho sabonete estocado para alguns meses, o que não é exatamente algo para se vangloriar no churrasco de domingo.) Percebam que essas coisas que comprei a mais não são exatamente indispensáveis para a sobrevivência na selva de pedra; comprei por puro impulso consumista. (Bom, até então, manteiga também não é algo tão vital.) Ao menos, não levei salgadinhos Elma Chips nem uma latinha de uma bebida estranha que se dizia baseada em vinho. Mas até quando poderei resistir? Quanto tempo mais até começar a comprar coisas estranhas como absorventes femininos ou utilidades domésticas de utilidade duvidosa? Quanto tempo até que o consumismo me consuma? Oh, sina cruel! |

September 23, 2005
Relações públicas Posted at 12:14 AM Hoje foi um dia terrível. Passei toda a manhã e todo o almoço e toda a tarde relembrando e remoendo uma só angústia. A mesma que me acompanha há meses, hoje totalmente emersa. Tudo que eu queria era me trancar numa câmara à prova de contato social; meu quarto já serviria. Voltando do trabalho, já na direção da padaria, tinha ao menos o conforto de estar bastante próximo da última conversa do dia – ainda que um tanto sem graça por entregar uma nota de vinte para pagar algo de dois. Quando chega minha vez no caixa, a moça que o pilota me disse com certa urgência: "Ai, esse senhor que saiu agora esqueceu de levar isso! Chama ele pra mim, por favor? Antes que ele vá embora!" Não, não...! Eu não quero falar com estranhos! Aahhh! Durante alguns milisegundos, pensei em simular um ataque cardíaco e me jogar sobre a gôndola de Ruffles, mas me pareceu extremamente injusto deixar que meus problemas pessoais afetassem as pobres batatas; isso estava muito além dos limites aceitáveis do egoísmo. Também não poderia simplesmente dizer "não", o povo da padaria é sempre cordial comigo. E foi isso: lá estava eu na porta da padaria (aliás, a mesma porta que me ignora) gritando para um senhor na rua. E tendo que gritar com ímpeto, porque seria especialmente deprimente voltar e dizer que eu falhei numa coisa tão simples – simples, ao menos, para quem estava com a cabeça no mesmo mundo que essas pessoas... |

September 23, 2005
Invisível, indefinível Posted at 12:16 AM Estava lembrando de como tinha medo do escuro quando criança. (Estranho lembrar com detalhes de coisas da infância e não ter quase nenhum registro da semana passada.) Não necessariamente de ficar no escuro, mas de senti-lo por perto. Se estava numa sala iluminada e havia uma porta aberta levando a um quarto escuro, eu tinha que fechá-la. Tinha que formar uma concha ao meu redor, isolar-me da falta de luz. Eu achava que a escuridão destacava a luz dos fantasmas, e que eles eram invisíveis em lugares iluminados. Percebam: eu não tinha medo dos fantasmas em si, mas tinha medo de vê-los. Era o que me marcava nos filmes da época; as pessoas viam um fantasma e ficavam imediatamente apavoradas, fora de controle, sem que eles precisassem fazer mais nada. E não podiam fazer mais nada: fantasmas atravessavam paredes, objetos, pessoas; não podiam tocar, não podiam ferir. Mas me apavorava a idéia de ver um, ainda que nunca tivesse visto ou ouvido nenhum. O escuro trazia o medo da possibilidade. Conforme crescia, fiquei cada vez mais confortável com o escuro, ao ponto de preferí-lo em lugar da luz. Em casa, só acendo as luzes quando estou comendo – para garantir que não vou fazer sujeira. O escuro não é mais possibilidade. Cresci e descobri tudo o que ele esconde. Descobri tudo o que pode haver no mundo, tudo que está lá mesmo quando não é visto. E descobri que sinto falta de acreditar que há algo mais, algo inexplicável. Algo que seja assustador porque representa uma possibilidade. Algo que esconda o sentido das coisas, as razões que não vemos. Um mundo além do mundo. Ultimamente, têm me agradado cada vez mais as neblinas. Elas escondem o mundo mesmo quando há luz; elas distorcem as regras. Engolem prédios, embaçam a visão dos lugares de infância, como se você estivesse caminhando numa grande lembrança de bordas arredondadas. Por um momento, durante as neblinas, as outras pessoas têm a chance de ver as coisas meio definidas, meio indefiníveis. Como a minha memória me mostra. |

September 25, 2005
Casos que só o Angeloni traz para você Posted at 09:37 PM 1) Tiozinho que entra no banheiro pedindo 1 real para almoçar. Frente ao fracasso, ele tira do bolso um frasco qualquer e passa os próximos cinco minutos enchendo-o de sabonete líquido, naqueles aparelhinhos malditos que liberam uma gota por vez. O pessoal da limpeza até forma uma platéia. 2) Pregador errante que elogia a perseverança do faxineiro e ressalta a importância social da limpeza do banheiro. Antes de sair, ele solta a pérola: "Nos EUA, um advogado precisa trabalhar 2 ou 3 anos como babá ou faxineiro no início da carreira, sabia?" 3) Mulher-das-bandejas obsecada por seu trabalho de... well, recolher bandejas. Ela leva qualquer bandeja que possa pegar. A presença de um cabeludo disposto a continuar usando a bandeja por mais um minuto é irrelevante; eles precisam disputar o objeto num ritualístico cabo-de-guerra improvisado. Ganha quem fizer "AaAaAh!" primeiro, afugentando o adversário. 4) Garoto que senta com uma pasta escolar à sua frente e passa o almoço a contemplar o vácuo. Em dias de chuva, pode ser visto com a orelha colada na mesa e a língua estendida para recolher gotas de água da pasta. Cabeludos ocasionais recusam-se a sentar na mesa ao lado ou na mesa ao lado da mesa ao lado. |

September 27, 2005
[review: cinema] A Fantástica Fábrica de Chocolate Posted at 12:37 AM Finalmente consegui ir ao cinema novamente. O último filme que assisti antes deste foi Old Boy – que, como prometido, já foi comentado anteriormente; a Renata perdeu esse post. Lindo. Os Oompa Loompas são as estrelas do filme (a estrela, de fato), com destaque para a canção de Mike TV. Pena que não escolheram, digamos, John Malkovich para interpretar Willy Wonka. Não que o desempenho de Johnny Depp tenha sido ruim; o personagem ficou realmente perturbado e perturbador. Só senti falta de uma pitada do cinismo do Willy Wonka número um. Surge uma piada mediana aqui e ali mas, perto do final, há uma cretina, criminosa. E não lembro como era! Deveria ter anotado; tão escrota que é engraçada. Se alguém for assistir, por favor, procure por piadas infames e refresque minha memória depois. (Não é aquela do "você tem cheiro de velho; e sabão", é muito pior.) |

September 27, 2005
Make it double Posted at 12:51 AM Hoje estava andando em direção à praça de alimentação e, como sempre, passei pela frente da Casa do Pão de Queijo. Eles fazem uns negócios muito bons com massa folhada, mas é pequeno e relativamente caro; teria que gastar muito dinheiro para matar a fome com isso. Ainda assim, minha consciência ficava dizendo "Ei, você está deprimido. Tudo bem se quiser fazer-se esse pequeno agrado, não há ninguém mais para cuidar de você". Foi quando ouvi outra voz dizer "Ah, pára! Isso aí já é manha!" Quem diria, minha consciência também tem uma consciência; I didn't saw that coming. (Eu fiz não serra essa chegando.) |

September 28, 2005
Breaking news Posted at 12:05 AM [Hahahaha! Nessa nem eu acreditei; para todos que acham estranho que eu dê nome às minhas coisas.] Ao chegar na casa da minha irmã, havia um ovo com um chapéu verde, "sentado" confortavelmente sobre a mesa. – "Você não viu isso ainda, né? O ovo de estimação da tua sobrinha", disse minha irmã. – "Ovo? Como assim, 'ovo'? É um ovo por dentro também, com todas aquelas coisas que um ovo tem?" – "Sim, mas está cozido; mandei a Nicole cozinhar depois do outro ter quebrado." – "Outro? Mas que desgraça é essa de ter ovos de estimação?" – "Não é de estimação", defendeu-se minha sobrinha. – "Sim, mas independente de você estimá-lo ou não, ele usa chapéu. É como um tamagochi que não faz nada e não reclama de nada?" – "É, mas eu cuido dele. Dou comida todo dia, dou banho e passo creme hidratante." – "Pra quê creme hidratante? Ele tem casca! Até agora fez alguma diferença ter passado creme? Ele ficou mais macio?" (Nesse momento, eu ainda tinha esperança de que fosse algum experimento escolar ou algo assim.) – "Não, é para não ficar com cheiro de ovo podre." – "Ugh! Há quanto tempo você tem esse ovo?" – "Desde ontem." Depois ela me mostrou os resto da casca da Courtney, o ovo anterior, dizendo que cuidaria melhor da Britney. – "Mas, mas... É UM OVO! De onde você tirou essa idéia de ter um ovo de estimação?" – "Não é de estimação!" – "Mas por que cuidar de uma coisa que não devolve carinho? Que nem se mexe?" – "Claro que não se mexe, é um ovo!" – "Sim! É um ovo! Esse argumento não te ajuda em nada!" – "Michel, você tem vinte e tantos anos, eu tenho doze; me deixa!" Oh well, o mal está feito. Lógico que eu não seria boa influência para uma criança. Melhor adiantar de uma vez as negociações diplomáticas com o Universo #3. |
