Entries for January, 2006
January 4, 2006Competition all around Posted at 08:24 PM Desempacotei minha escova de dentes ao mesmo tempo que um gaiato, hoje, na pia coletiva do Angeloni. Com o canto do olho, logo saquei que ele queria encrenca. Já foi lançando o creme à boca sem nem molhar sob a torneira – exibido! O desafio estava claro: era um teste de resistência. Meu adversário era bom, mas apressado; gastava energia à toa. Ele já estava perdendo o pique quando, quase tomado pelo horror, percebeu que eu mal começara a escovar o outro lado. Depois que ele desistiu, ainda fiquei escovando por mais um minuto, com o total controle, apenas para mostrar a todos como os profissionais fazem. Não que ele tenha ficado para aprender. Ficou tão envergonhado que dispensou a água; engoliu tudo e foi embora. Pode até ter ficado com o esôfago mais limpo que o meu, mas isso não tem nada a ver com higiene. É o teste definitivo que separa os homens das hienas. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Embora seja contra meus princípios fazer esse tipo de coisa, sinto-me obrigado: eu sei reconhecer quando alguém é bom. Por favor: Ressaca Moral Na parte do campeonato, eu já estava chorando. Se você suporta emoções fortes, recomendo fuçar os demais posts. |

January 6, 2006
Lazy titles all around Posted at 07:16 PM Então. Estava vindo para casa alegremente, cantando "Free Time". Duas garotas numa moto olharam para mim e começaram a cantar "Volare". Quando estava passando em frente a esse prédio do começo da minha rua, dois minutos depois, as mesmas garotas estavam lá e começaram a cantar de novo! Só tem gente louca no meu bairro. |

January 19, 2006
Cremoso Posted at 09:35 PM Floripa é a terra do Apocalipse, mesmo. De onde veio esse dia frio nebuloso de ontem, na seqüência de dias quentes odiosos até então? Só faltou um ciclonezinho para alegrar mais as coisas, ou Godzilla e seus amigos. Coincidência ou não, meu organismo virou do avesso. Ontem, tontura e enjôo seguido de perda do almoço. Hoje, dor de cabeça eterna. Eu posso contar numa mão quantas das minhas dores de cabeça já duraram mais de meia hora, e a de hoje está valendo por vários dedos. (Quiero describir más abenturas ahi, pero estoy muy podrido. Adónten yo cheguiei en mi casa e desabié en la cama sin chance nim para jantiar. Más y mejores notícias en brebe.) (Si, mi espanõl és muy cremoso.) |

January 21, 2006
Visão Posted at 12:04 AM Qualquer dia em que meu corpo inteiro não esteja doendo como se minha mente houvesse sido transplantada para uma enorme íngua é, no meu julgamento atual, um ótimo dia. Fiz ontem à noite o inventário do que não estava doendo e cheguei à seguinte lista: (1) orelhas, (2) mamilos, (3) pele que cobre o joelho. Todo o resto encontrava-se impróprio para o uso. Hoje, livre deste mal, sobram-me ainda as alucinações. Estava esperando o ônibus no terminal quando se aproxima das trevas uma criatura 70% surfer-like. "E aí, velho? Preciso largar essa camiseta aqui, saca? É da Iódice. Massa velho, preta. [Por algum motivo, na hora não me pareceu nada estranho que a camiseta fosse, na verdade, vermelha. No final das contas, o cara não parecia muito real.] Tá a fim?" Depois de despachá-lo com um gesticulado aristocrático qualquer, entrei no ônibus. Duas garotas estavam se enrolando para dar o dinheiro ao cobrador. Eis que alguém me cutuca e solta um "Pchiuu!"; de canto de olho, vejo que era aquele mesmo cidadão. Eu já estava praguejando com minhas vozes "Não creio que o cara me seguiu até aqui para vender essa desgraça de novo!", mas percebi que, quando você resolve usar o olho todo em vez de apenas os cantos, ele costuma funcionar melhor e a mágica da visão se realiza de maneira decente. Era um outro cara qualquer que parecia o Kauê, talvez pedindo desculpas por ser um cutucador compulsivo. |

January 21, 2006
Pára o mundo que eu quero demolir Posted at 10:57 PM Na minha mais recente obsessão, estive procurando por todas as variações já realizadas com o enredo do The Hitchhiker's Guide to the Galaxy. A história já rendeu uma série de rádio (BBC), livros ("a trilogy in five parts"), TV e até quadrinhos. Mas lindo mesmo é isso aqui: The Hitchhiker's Guide to the Galaxy - The Adventure Game (Infocom) [versão em Java] Um daqueles adventures em puro texto, da época em que "os jogos não podiam ter gráficos e som ao mesmo tempo, e certamente não podiam ter gráficos, som e conteúdo suficiente para manter mesmo um ser humano entretido por mais de alguns minutos". Essa versão é puro saudosismo, certamente mais emocionante por conta disso; mas temos aqui uma outra: The Hitchhiker's Guide to the Galaxy - The Adventure Game [versão em Flash] Embora use gráficos (esse recurso enganador e capitalista), é bem mais recomendável porque a função save funciona. Enfim, o jogo é impossível – imagino que mais ainda para quem não conhece a história –, mas vale ao menos vasculhar o começo. (Como é dito em alguma página ligada ao primeiro link, sair da casa no começo do jogo já é algo a ser comemorado.) Seguem algumas peculiaridades que encontrei quando comecei a jogar. (Em tempo: o help é muito bom, nas duas versões – embora não seja de muita ajuda.) - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - [Próximo ao início] The bedroom is a mess. It is a small bedroom with a faded carpet and old wallpaper. There is a washbasin, a chair with a tatty dressing gown slung over it, and a window with the curtains drawn. [...] >look at the window As you part your curtains you see that it's a bright morning, the sun is shining, the birds are singing, the meadows are blooming, and a large yellow bulldozer is advancing on your home. >open the window The bloody thing's been jammed shut for months, now. >break the window You are obviously letting things get to you. You should learn to relax a little. [...] - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - [Depois de ser materializado na nave Vogon] Dark. You can't hear anything, see anything, smell anything, feel anything, or taste anything, and do not even know where you are or who you are or how you got there. >look You can see nothing, feel nothing, hear nothing, taste nothing, smell nothing, and are not entirely certain who you are. >get out of the dark You can see nothing, feel nothing, hear nothing, taste nothing, smell nothing, and are not entirely certain who you are. >wait There's nothing you can taste, nothing you can see, nothing you can hear, nothing you can feel, nothing you can smell, you do not even know who you are. >wait until I can do something I don't know the word "until". >wait longer I don't know the word "longer". >wait You can hear nothing, taste nothing [...] >wait There's nothing you can taste [...] It is of course well known that careless talk costs lives, but the full scale of the problem is not always appreciated. For instance, at the exact moment you said "wait until I can do something" a freak wormhole opened in the fabric of the space-time continuum and carried your words far far back in time across almost infinite reaches of space to a distant galaxy where strange and warlike beings were poised on the brink of frightful interstellar battle. The two opposing leaders were meeting for the last time. A dreadful silence fell across the conference table as the commander of the Vl'Hurgs, resplendent in his black jewelled battle shorts, gazed levelly at the G'Gugvunt leader squatting opposite him in a cloud of green, sweet-smelling steam. As a million sleek and horribly beweaponed star cruisers poised to unleash electric death at his single word of command, the Vl'Hurg challenged his vile enemy to take back what it had said about his mother. The creature stirred in its sickly broling vapour, and at that very moment the words "wait until I can do something" drifted across the conference table. Unfortunately, in the Vl'Hurg tongue this was the most dreadful insult imaginable, and there was nothing for it but to wage terrible war for centuries. Eventually the error was detected, but over two hundred and fifty thousand worlds, their peoples and cultures perished in the holocaust. You have destroyed most of a small galaxy. Please pick your words with greater care. >panic You yell as loudly as you can, but no sound emerges. >eat What do you want to eat? >eat dog You can't see any dog here! >look for a dog You can see nothing, feel nothing, hear nothing, taste nothing, and are not entirely certain who you are. When will you come to your senses and solve this puzzle? |

January 21, 2006
Don't panic; keep looking at the book Posted at 11:36 PM Aproveito para registrar aqui algumas passagens do HHGG que considero especialmente inspiradas (do início do livro, que é onde estou): - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Not a remarkable house by any means - it [...] had four windows set in the front of a size and proportion which more or less exactly failed to please the eye. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - The ships hung in the sky in much the same way that bricks don't. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Well didn't you think of anything? I thought you said you were going to think of something. Perhaps you thought of something and didn't notice. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - A hole had just appeared in the Galaxy. It was exactly a nothingth of a second long, a nothingth of an inch wide, and quite a lot of million light years from end to end. As it closed up lots of paper hats and party balloons fell out of it and drifted off through the universe. A team of seven threefoot-high market analysts fell out of it and died, partly of asphyxication, partly of surprise. [...] The highest prime number coalesced quietly in a corner and hid itself away for ever. - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - "Haaaauuurrgghhh..." said Arthur as he felt his body softening and bending in unusual directions. "Southend seems to be melting away... the stars are swirling... a dustbowl... my legs are drifting off into the sunset... my left arm's come off too." A frightening thought struck him: "Hell," he said, "how am I going to operate my digital watch now?" He wound his eyes desperately around in Ford's direction. "Ford," he said, "you're turning into a penguin. Stop it." - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Arthur had jammed himself against the door to the cubicle, trying to hold it closed, but it was ill fitting. Tiny furry little hands were squeezing themselves through the cracks, their fingers were inkstained; tiny voices chattered insanely. Arthur looked up. "Ford!" he said, "there's an infinite number of monkeys outside who want to talk to us about this script for Hamlet they've worked out." - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Douglas Adams, The Hitchhiker's Guide to the Galaxy (1979) |

January 22, 2006
Processos Posted at 12:50 PM Dia desses, por conta de um acesso de loucura, voltei a ouvir os primeiros álbuns do Guns; ontem, foi a vez de revirar o passado do Aerosmith. Nisso, acabei resgatando algumas músicas legais das quais não lembrava, como Nightrain – eu ouvi "trails"? –, I Used to Love Her (cuja letra é puro romantismo), Dude (Looks Like a Lady) – que fique registrado: lindo nome de música, – e Livin' on the Edge. Até fazem relevar toda a parte deprimente da carreira dessas bandas. Agora, convoco todos os meus amigos para esta tarefa: se algum dia minha loucura tornar-se doentia e eu quiser ouvir Nirvana – que tenho orgulho de dizer que não faz parte do meu passado –, impeçam-me, usando todos os recursos disponíveis. Prendam-me, processem-me, lobotomizem-me. Deuses, ME DEIXEM OUVIR FUNK CARIOCA; mas Nirvana, não. |

January 29, 2006
[review: jogos] NFS Underground 2 Posted at 12:22 AM É apenas comigo ou é impossível olhar um carro sem imaginar que os faróis são dois olhos? Faço força para abstrair, mas em vão. Creio que tudo começou com aquele antigo desenho animado protagonizado por um carro mudo - sempre às voltas com uma gangue de motocicletas arruaceiras, cuja motoquinha-mascote sempre dizia "eu te disse, eu te disse!" [É sério, não estou inventando isso; passava na TV quando eu era moleque, com o nome de Carangos e Motócas. Wheelie era meu personagem favorito na infância, seguido de perto por Cobrinha Azul e Topo Gigio.] Inevitável também não julgar a personalidade dos automóveis de acordo com suas expressões. Os antigos Volkswagen (Fusca, Kombi) me parecem trafegar assustados, com medo dos novos tempos e das novas tecnologias. Os modelos da Fiat, como o Palio e o Stilo, quase sempre têm cara de quem está eternamente entediado. ("Humanos vão ao mercado, humanos voltam do mercado, humanos vão ao trabalho, humanos voltam do trabalho... Humanos, por favor! Vamos fazer algo emocionante, vamos correr!") Para mim, o Clio é o mais simpático de todos, com um jeito meio mangá de olhar as coisas. Já o Focus parece bastante enfezadinho. Os que certamente acho os mais estranhos são aqueles com duas fileiras de faróis; parecem monstros, ou insetos gigantes. Não sei explicar, parecem artificiais, sabem? Como se fossem robôs. Eu, que nunca liguei para carros na minha vida, comecei a prestar atenção neles somente depois de jogar Need for Speed Underground. Sabem aqueles sites onde as meninas ficam montando bonequinhas, escolhendo cabelo, roupas, acessórios, para depois colocar no desktop? (Minha sobrinha adora essas coisas.) Então: NFSU é a mesma coisa, só que para meninos; consequentemente, você monta carros. Ocasionalmente, você até corre com eles – apenas porque é a única forma de levantar dinheiro para comprar mais frescuras –, embora o verdadeiro objetivo do jogo seja brincar de pintar e colecionar penduricalhos para depois mostrar aos amigos. Eis minha primeira aquisição, um Civic. Tão Megaman-like quanto o início do jogo me permitiu fazer. (Por algum motivo bisonho, a garagem tem essa luz amarelada, então o azul não parece tão blue-bomber assim.) Este belo ônibus em chamas é uma das três opções de SUV* que o jogo te oferece – ao menos, até onde joguei. Não é aquela glória, mas certamente melhor que o Hummer, a coisa-sobre-rodas mais feia que a humanidade já criou. Em todo caso, essa desgraça é sempre manobrável como uma porta e aerodinâmica como uma pedra, independente de estar entupida ou não de upgrades; nada muito jogável. Junto ao Eclipse, vieram novas opções de vinil, como essa teia altamente Spider-Man. Lógico que eu teria que usar, e ele acabou se tornando meu favorito (já que o Tiburon, neste jogo, é ágil como uma ogiva nuclear). Acabei de comprar outro carro, mas não tenho dinheiro para brincar de montar. Assim que conseguir algum, nascerá o Micheramóvel, as orange as it can be. Nunca me atraiu muito a idéia de dirigir mas, se eu tivesse um carro, ele teria que parecer de brinquedo, como estes. (Provavelmente, se eu tivesse mesmo um carro, ele seria desses que se vê por aí coberto de lama e poeira até o capô, já que eu acabaria tendo com ele o mesmo cuidado que tenho com meu quarto. Para quem nunca viu, segundo testemunhas, meu quarto junta tanta poeira nos cantos que eu poderia cultivar meus próprios vegetais nela. Não considerei o comentário ofensivo porque, de fato, tolero alguns vegetais, como maçã, batata e pão. Mas percebam: meu quarto não é assim por desleixo; ele é um ambiente deliberadamente hostil e impróprio à vida humana para promover a minha superação e garantir a vocês o usufruto de um Michel melhor.) - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - * Seriously Ugly Vehicle? |

January 29, 2006
Imaginação tem limites Posted at 10:42 PM Dia desses, o Sandro foi almoçar comigo no Angeloni. Uma boa oportunidade para perceber como estou desacostumado a socializar durante o almoço – e, principalmente, conversar durante o almoço. Já estou tão habituado a almoçar sozinho, fazer compras sozinho, andar sozinho... já nem sei dizer se acho isso ruim ou não. De fato, lembrando dos meus tempos de guri, eu sempre fui bem sozinho. Mesmo nos raros momento em que estava brincando com outra criança, acabava não dividindo minha imaginação com mais ninguém. (Minha maior diversão nem era propriamente brincar com as coisas, mas desmontar e montar, tentando construir algo diferente do original. Eu chegava ao ponto de passar tardes inventando algo com a peças de LEGO e, quando finalmente fazia algo que me agradava, ficava com pena de desmontar – e não o fazia antes de registrar um desenho esquemático passo-a-passo, ao molde daqueles que acompanhavam cada caixa, em vista isométrica e colorido. Sim, eu era um moleque perturbado; deveria ter dedicado mais tempo a brincar com lama.) Eis agora: já me disseram que o grande truque da felicidade é aprender a ser feliz sozinho, sem depender de mais ninguém – o que não significa isolar-se, mas usar a solidão a seu favor, quando ela aparece. Mas como saber se funcionou? Como saber se essa quietude sem grandes enlevos é felicidade? Como saber se eu não poderia estar experimentando felicidade maior se já nem lembro mais como são as alternativas à solidão? Como saber se eu estarei satisfeito, ao fim da vida, ao ter evitado todas as emoções inquietantes – que podem, afinal, ser o sentido de viver? Como me convencerei de que não fui simplesmente pretensioso e egocêntrico ao achar que não precisaria construir nem dividir nada com mais ninguém? Sounds so not like me; where do I sign out? |

January 30, 2006
Hot spot Posted at 12:30 PM Hell, is quite hot in here, you know? (By "here" I mean "under all this hair".) Sério, é a parte que mais esquenta sob o Sol; assim, meu cérebro vai superaquecer. Acho que preciso instalar uns dutos de ventilação urgentemente. |

January 30, 2006
Medidas Posted at 09:54 PM Estava eu na fila do caixa do Giassi. (Aquela grandona, disputada por vários caixas.) As pessoas estavam alegres, sendo gentis. Fazendo brincadeiras com estranhos. Sabe, TODOS estavam assim; um daqueles raros momentos em que nada parece estar errado no mundo. Um senhor que era quase exatamente igual ao Robin Williams olhou para mim e sorriu – aquele sorriso sem dentes do, sabe, Robin Williams. Lá estava eu, em meio a tantas pessoas aparentemente felizes. E isso não me irritava nem um pouco; sentia-me confortável. Isso quer dizer que também estou... feliz? |
